terça-feira, 13 de setembro de 2011

rascunho

fora
de foco

no fundo
do poço

meu coração
é um bloco

de concreto.

fora
de série

no alto
do morro

meu coração
é um bloco

de carnaval.


sábado, 24 de outubro de 2009

devaneio burocrático

fracassos sucessivos
imprimem
à resma de papel
a identidade
de um estranho.

o nome
o número
o cargo
pertencem apenas ao carimbo.

os olhos na cara
e as pupilas nos olhos
já vão longe,
mareados
pelas águas azuis
que cingem
a ilha fantástica
na tela do computador.

a informática faz milagres.

um dia
não haverá mais carimbos
e os sonhos,
como as ilhas desertas,
poderão, enfim, ser habitados.

sábado, 17 de outubro de 2009

o céu de Marília

“... a partir daquele instante, quis estar no dia seguinte.
Ato contínuo, compreendeu que aquela vontade era
inútil porque a morte de seu pai era a única coisa que
tinha acontecido no mundo e continuaria acontecendo

infindavelmente.”
emma zunz, J.L.Borges

O céu não é paisagem estática. Há quem veja formas de animais no contorno das nuvens, quando o vento as empurra e as vai dobrando como se feitas de argila ou algodão. Há quem se perca nos próprios pensamentos ao contemplar o sol a perfurar o horizonte, anunciando Deus no firmamento. Aos estudiosos da meteorologia não deve sobrar muita coisa além de nomes científicos e probabilidade de chuva. Quando penso no céu, é para dar conta da saudade que me causa a falta do meu pai. Há dias em que é quase possível sentir a eletricidade no ar. Tem-se a certeza de que vai chover, apesar do dia claro e do azul profundo. A tempestade vem de longe, contornando os picos da serra, e, de repente, ao final da tarde, apaga, com uma ripada, o incêndio a que dezembro submete as ruas da cidade e as plantações no campo. Era uma correria danada para fechar as janelas da casa. Minha avó deixava-as propositadamente abertas, todas, como arapucas para eventuais brisas que vinham perder-se na sala de estar, onde ficava a mesa de feltro verde. Ela tem mania de jogar paciência. (xxxxxxxx) Naquela tarde, porém, ninguém poderia adivinhar que vinha chuva. O estouro distante dos trovões não ressoou. A ventania tampouco arremessou as venezianas contra as paredes da varanda. O dia estava calmo e quente e estático. Não conseguia, por nada no mundo, me concentrar no livro das férias. Empurrava a rede com o pé, bem de leve, enquanto escutava os ruídos da casa: mãos habilidosas embaralhando cartas e o tilintar de aço, louça e vidro. A voz da minha mãe vez por outra emitia opiniões incompreensíveis, mas que provocavam riso na Dora. As duas limpavam a cozinha depois do almoço, enquanto eu cochilava na rede e minha irmã passeava com a filha da caseira. Não sentia preguiça, mas receio – medo de algo que não saberia descrever, como a solidão, que é ausência de tudo, até palavras. (xxxxx) Na noite anterior, havia observado meu pai enquanto dormia. Há anos não fazia isso. De pequena, era a via de regra: sempre que tinha pesadelos, corria para a cama deles e, sem pedir licença, me enfiava na trincheira entre os dois, ao abrigo de qualquer maldade. Acho que tive insônia aquela noite, minha irmã dormia, e precisava conversar com alguém. Bati à porta do quarto deles. Não houve resposta. Entrei assim mesmo, e lá estava meu pai, virado para a porta, os olhos trancados à chave. Os fios de cabelo sobre a cabeça pálida pareciam riscos de lápis numa folha de papel. Percebi que a careca lhe conferia imensa simpatia, porque, quando sorria, franzia a testa, e a ausência de franja revelava extensas rugas que confirmavam: a felicidade era, para ele, um sentimento verdadeiro e habitual, como o cansaço para a maioria das pessoas. Vendo-o dormir, era como se tivéssemos trocado de papel e fosse minha responsabilidade zelar por ele. Aquilo me deu medo, talvez o mesmo medo que sentia no dia seguinte, deitada à rede, quando vi um único raio rasgar o céu e desorganizar minha vida pelos próximos cinco, seis, sete, cem anos. Levantei (xxxxxxx). Chamei minha mãe (xxx). Minha irmã voltou do pomar (xxxxxx). Não lembro a ordem das coisas depois do raio. Os fatos graves estão fora do tempo porque as partes que os formam não parecem consecutivas. A noite chegou, junto com a chuva, e nada do meu pai, que havia saído para jogar futebol. Ao invés dele, chegou o prefeito da cidade. Suava. Avisou que meu pai tinha sofrido um acidente grave e estava na Santa Casa de Campininha. Saímos de carro, quatro mulheres apavoradas e o homem gordo, que dirigia e não abriu mais a boca. Chovia muito. A estrada havia se transformado num lamaçal. Quando chegamos, uma pequena multidão aglomerava-se diante do hospital. Logo à entrada do pronto socorro, um médico chamou minha mãe de lado e anunciou que meu pai havia falecido. Não podia acreditar. O motivo: um raio havia lhe caído sobre a cabeça. Pode a verdade ser impossível? O resto da memória daquele dia se perdeu em lágrimas. (xxxxx) Meu pai voltaria a morrer muitas vezes, sempre que.

Antes que Marília pudesse terminar a frase, a voz rouca do diretor anunciou o fim do exercício. Ela hesitou em largar a caneta. Tinha ganas de continuar escrevendo até completar um livro. A morte do pai era assunto inesgotável. Mas a instrução agora correspondia a organizar-se em roda e compartilhar com o resto do grupo o resultado dos cinco minutos de escrita automática. Enxugou o nariz e as bochechas, vermelhas como carne viva, e juntou-se aos colegas no centro da sala.

Todos tiveram que ler, mas, nas palavras do diretor, nem todos leram histórias urdidas do fundo da alma. Lançou Marília como exemplo aos demais, salientando que, durante sua leitura, o vigor espiritual do texto, muito mais que o mero relato de um acontecimento, havia ficado evidente. “Vocês perceberam? Obrigou-se a interromper a fala sucessivas vezes, para tomar ar e conter a emoção. É sinal de que estava realmente sentindo o que dizia”.

Desde que ingressara na companhia teatral, há pouco mais de dois anos, a admiração do diretor pela menina, quieta e desconcertantemente loira, crescia. Haviam estabelecido uma relação de estreita amizade. Dedicava-lhe boa parte do seu tempo, entre pensamentos mudos, ironias bem intencionadas e conselhos. Indicava-lhe autores insuperáveis e filmes imperdíveis, oferecia-lhe convites para as exposições que tinha preguiça de visitar, queria sempre saber sua opinião a respeito dos rumos da peça que começavam a ensaiar, dividia com ela suas angústias de artista, além de duas religiosas manhãs de sábado por mês, nas quais lhe ensinava técnicas de impostação de voz e postura corporal. O aprendizado de toda uma vida consagrada a Dioniso era, naquele singular relacionamento entre um homem de sessenta anos e uma órfã quarenta anos mais nova, objeto simultâneo de generosa caridade e desmedida adoração. Tinha o cuidado permanente de acompanhar o desempenho de Marília durante os exercícios cênicos em grupo. O ciúme que o excesso de zelo provocava nas outras atrizes, costumava dissipar com reprimendas violentas, cujo alvo não eram elas, mas justamente a introspectiva menina de cabelos amarelos, talentosa, mas incapaz de executar a atividade a contento. Ela tinha força para agüentar firme até o fim do dia, quando desabava em prantos no camarim deserto, sentindo ódio e com vontade de quebrar o espelho diante de si e cravar uma das lâminas prateadas nas costas do velho injusto e grosseiro. Ao detectá-la prestes a deixar o teatro, como se para seu discreto esplendor tivesse um sexto sentido, o diretor interrompia o que quer que estivesse fazendo para pedir-lhe desculpas e, por meio de longas explicações que envolviam culpa e difíceis conceitos filosóficos, forjar a reconciliação. Nem sempre Marília perdoava-o de imediato. A trégua podia demandar visitas ao café no fim da rua: capucino, maços inteiros de cigarro, novas digressões acerca da natureza humana e, às vezes, até mesmo velhos causos em que exagerava sua astúcia para lidar com atores consagrados que, à época, não passavam de inexperientes malcriados. Os olhos dela, colados nos seus e azuis como o verde, enchiam-se de brilho e estima. Era o sinal inconteste de que tudo estava resolvido. A amizade voltaria a seguir seu curso natural. Voltaria a aproximá-los, não apenas como irmãos, pois a fraternidade é a harmonia inerente às amizades convencionais, mas também como pai e filha. Marília não o confessava a ninguém, talvez porque não o soubesse, mas aquele senhor ressuscitara seu pai e, cinco anos após sua morte, educar-lhe-ia na profissão para a qual havia decidido devotar sua alma. A ingênua gravidade da decisão tomada pela menina, que, a qualquer custo, como a Nina de Tchekov, tornar-se-ia atriz, era de pleno conhecimento do diretor. A densidade de seu afeto por ele – a veneração que as crianças têm para com seus heróicos pais –, idem. O diretor não conseguira ainda achar as palavras adequadas para expressar a correspondência de seus sentimentos.

Ao dispensar o grupo de atores do ensaio, o diretor pediu à Marília que o procurasse antes de partir. Precisava lhe falar sobre o exercício de escrita automática e, nas suas palavras, sobre outros assuntos igualmente dignos de consideração. Pediu que fosse sozinha. “Se não for hoje, acabo me esquecendo”, observou. Ela o encontrou encerrado em seu gabinete, mal iluminado por um abajur de metal enferrujado. O diretor divagava de olhos fechados, o rosto deitado nas mãos e os cotovelos encravados na mesa. Não percebeu (ou fingiu não perceber) quando ela entrou. Riu do próprio sobressalto e ofereceu-lhe uma cadeira. Estendeu-lhe a mão, estranhamente oblonga, e recebeu, em troca, outra mão, menor, de dedos finos e úmidos como raízes. Falou sem parar. Discorreu sobre a amizade, a arte, o teatro, a beleza e o preço que se tem de pagar para ascender às estrelas. Enquanto descortinava essas palavras secretas, há tanto tempo enterradas no silêncio que exalavam miasma, comprimia a mão dentro da sua, até quase esmagá-la.
.
A dor alastrou-se pelo corpo de Marília como uma descarga elétrica. Ao atingir o coração, infiltrou-se pelas artérias e, num átimo, possuiu todo seu corpo, queimando-lhe a pele por dentro. Lutou, gritou, soluçou. Em vão, tentou desvencilhar-se. A dor era muito forte, demasiadamente intensa. Calou-se com os olhos fixos no teto do minúsculo escritório. Usou da escuridão para imaginar que estava em Campininha, na varanda do sítio, às vésperas de celebrar o ano novo. Ouviu, à distância, a voz de seu pai, que finalmente regressava do jogo de futebol. Dizia-lhe que não tivesse medo. Ela o procurou na escuridão, por todos os lados, dentro e fora da casa, pelo jardim, pelo pomar, mas não o encontrou em lugar algum.

Fechou os olhos, completamente sozinha, e concluiu, sozinha, a frase que, há pouco, não chegou a terminar, meu pai voltaria a morrer muitas vezes, sempre que olhava o céu e não podia vê-lo por trás das nuvens.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

terrorismo literário e caralinhos voadores

Comecei a praticar terrorismo literário na ponte aérea. Revistas de bordo não servem para outra coisa. As estrelas das matérias de capa brilham num unverso limítrofe, entre a cultura e a fama.

Li a entrevista do júnior Duran. Fiquei impressionado com o fascínio do homem por marcas. Na matéria, revela que decidiu fazer fotografia ainda adolescente ao admirar-se por um fotógrafo, que, à época, comia sua prima, 20 anos mais nova. O que lhe chamou a atenção no homem foi um jacaré da Lacoste estampado sobre seu peito, como se nu estivesse de camisa. Nas palavras de júnior, "ele [o fotógrafo da tatuagem] tinha uma inquietude, conhecia muitas coisas, e esta é a característica dos fotógrafos: ser um especialista em tudo". Júnior Duran é também escritor. Só toma notas em cadernos Moleskine. Outra característica dos fotógrafos, em particular do Júnior, é cagar regras em grande estilo.

De uma dessas viagens a São Paulo veio a ideia do terrorismo literário. A caneta estava à mão e minha paciência havia se esgotado na sala de embarque. Supreendido pela saberência do fotógrafo magnífico, autor de ficção e conhecedor do "exótico e misterioso" continente africano, comecei a ilustrar a revista com caralinhos voadores. Júnior Duran sonha com caralinhos voadores, informava na legenda dos desenhos. Não posso levá-lo a sério. O que ele diz não faz sentido. Ele não sabe nada, apenas sonha com caralinhos voadores. Pairam sobre a cabeça dele como cupidos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

o medo em santa cruz

O vento feria-lhe a pele do tórax, atropelando o casaco sintético de motociclista e insinuando-se pela fresta da camisa, como os estalactites de gelo que pendem da borda dos telhados no inverno. Ainda não começara a nevar, mas já era possível sentir com absoluta clareza o cheiro indiferente do frio, um odor sem fragrância, sem rastros de flores ou plantas, morto e seco por dentro. Baixou o gorro sobre as orelhas num gesto furtivo e sua testa desapareceu até a linha das sobrancelhas. Mais alguns centímetros e estaria completamente irreconhecível. As mãos regressaram rapidamente para o abrigo dos bolsos. Caminhava a passos rápidos, um pé no encalço imediato do outro, tentando convencer a si mesmo que ganhar velocidade era apenas a melhor forma de manter-se aquecido. Não tinha pressa porque não sentia medo, repetia de si para si. Sentia frio.

A irmã caminhava ao seu lado e queixou-se, pela segunda vez, porque tinha dificuldade em acompanhá-lo. Falava sem parar a respeito da festa para a qual não havia sido convidada na semana anterior, mas à qual comparecera assim mesmo, por meio dos relatos pormenorizados das amigas. Relacionava os acontecimentos daquela noite como se somasse, subtraisse e multiplicasse em vão os elementos de uma equação matemática cuja resolução está prestes a ser revelada. A boca estava em descompasso com as pernas, e, a cada elemento novo que introduzia no problema – uma terceira dose de pisco, picuinhas nacionalistas, olhares escorrendo sobre o decote de uma namorada perdida, o sangue arterial jorrando do nariz do namorado desnorteado –, agitava os dedos em riste no ar como se quisesse acusa-lo de um crime perverso e inafiançável. Sua voz descrevia círculos e curvas estridentes como vagões a derrapar sobre os trilhos de uma montanha russa. Tinha um tom agudo quase insuportável quando se inflamava que, em circunstâncias como aquela, remetiam-no invariavelmente à memória da infância.

Concentrado em sua mudez de esfinge, irritava-se com a irmã por três motivos simultâneos e coincidentes: seu talento para discorrer por horas a fio sobre o mesmo assunto sem chegar a conclusões favoráveis ou otimistas, sua descoordenação motora, que a tornava incapaz de falar sem se perder do ritmo da caminhada, e sua insistência em inquiri-lo a respeito dos acontecimentos do último sábado, história que considerava encerrada e arquivada. Arriscou dissipar seu nervosismo e anular o solilóquio da irmã assobiando as time goes by, atitude que ela classificou como no mínimo desapropriada para o momento. O momento era sério, exigia sensatez e reflexão, e, fosse menos orgulhoso ou fosse menos teimoso, reconheceria a necessidade de pedir perdão. Admitir que havia errado, no entanto, correspondia a assumir que estava arrependido. E o arrependimento naquela noite de especulações valia muito mais do que a vaidade de seus vinte e cinco anos. Sua vida estava em risco.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

censo comum

um em um
milhão
como dois
e dois são cinco.

multidões
de almas
desertas
nas ruas

e

turbilhões
de ruas
abertas
na alma.

domingo, 4 de outubro de 2009

1. tomar o elevador


Ao fechar a porta atrás de si, certificou-se de que a bolsa estava bem fechada. Havia dentro dela um segredo sobre o qual K. havia lido recentemente. Um segredo que, em verdade, vinha estudando nas duas últimas semanas com a dedicação que poucas vezes atribuíra aos livros. Uma idéia que lhe despertou de tal forma a curiosidade que vinha praticando até seis horas de leitura por dia, de um só fôlego ou inserindo páginas e páginas nas brechas entre um e outro expediente que chegavam a sua mesa pelas mãos ágeis e desinteressadas dos contínuos. Lia durante o horário de almoço, dedos aferrados ao garfo e olhos agarrados às letras, alheio ao ruído de vozes que ressoavam em círculos pelo refeitório como maremoto de intrigas, reclamações, piadas, machismos. Duas vezes na semana perdera a hora, não sabia dizer se de propósito, pois já vestido, a gravata bem atada ao colarinho, instalou-se na cama desfeita ao invés de trajar o paletó, disposto a dissecar o significado preciso daquele segredo por meio da análise pormenorizada de todas as suas possíveis interpretações. A última vez que trabalhara o intelecto nessa intensidade havia sido durante a preparação para o concurso público que o presenteara com uma vida normal, a vida que lhe pertencia e a mais ninguém, a sua vida, a vida que tinha inteira pela frente: o salário afixado ao primeiro dia de cada mês, trinta dias de férias a cada ano e 45 anos de serviço até ser aposentado compulsoriamente. A vida que lhe garantia o conforto do poder aquisitivo e a paz de espírito de, como costumavam vangloriar-se os colegas, não ter mais com que se preocupar. K. era um homem feliz, um homem feliz com um segredo.


As chaves do carro estavam no bolso esquerdo e o telefone celular no direito. O rosto diante de si, a sua frente, inspiraria apenas a indiferença de quem o olhasse. Olhava-o com atenção numa busca inútil, estranhando a si mesmo, mas sem perplexidade, apenas se certificando de que a boca, os olhos e o cabelo de raposa continuavam ali, enquanto apalpava as laterais da calça: aquele era ele e ele não poderia jamais ser outra pessoa nem ter outra cara. As sobrancelhas escondiam-se parcialmente atrás da armação dos óculos, mas não o suficiente para esconder o defeito de que estavam coladas uma à outra por uma terceira sobrancelha imediatamente acima do nariz. O rosto de K. era pálido e comum como os rostos existentes nas multidões. O rosto de uma pessoa de quem se pode esperar pouco ou não se pode esperar nada, como se atrás dele houvesse um cérebro duro, como uma noz, impermeável à sofisticação das idéias filosóficas, e pequeno, como uma noz, incompetente para transformar emoções oriundas das vísceras, como a indignação ou o repúdio, em ação. Ao estudar-se no espelho, durante a breve viagem de cinco andares até o térreo, K. constatou que não se parecia consigo próprio, o que, no plano esboçado em sua mente, constituía um enorme trunfo sobre o acaso. Revelar o segredo que carregava na bolsa envolvia riscos, riscos sérios, possivelmente uma condenação, e, por isso, desvencilhar-se de sua própria identidade era fundamental. Testemunha ocular alguma poderia acusa-lo de haver entregue o segredo ao domínio público se não o pudesse identificar. K. lera, dia desses, que o maior ardil armado pelo Diabo foi convencer a humanidade de que ele não existe.