Fragmentos de histórias, poemas dispersos e passagens de um diário. Um livro suspenso. Um livro no ar.
domingo, 4 de outubro de 2009
1. tomar o elevador
Ao fechar a porta atrás de si, certificou-se de que a bolsa estava bem fechada. Havia dentro dela um segredo sobre o qual K. havia lido recentemente. Um segredo que, em verdade, vinha estudando nas duas últimas semanas com a dedicação que poucas vezes atribuíra aos livros. Uma idéia que lhe despertou de tal forma a curiosidade que vinha praticando até seis horas de leitura por dia, de um só fôlego ou inserindo páginas e páginas nas brechas entre um e outro expediente que chegavam a sua mesa pelas mãos ágeis e desinteressadas dos contínuos. Lia durante o horário de almoço, dedos aferrados ao garfo e olhos agarrados às letras, alheio ao ruído de vozes que ressoavam em círculos pelo refeitório como maremoto de intrigas, reclamações, piadas, machismos. Duas vezes na semana perdera a hora, não sabia dizer se de propósito, pois já vestido, a gravata bem atada ao colarinho, instalou-se na cama desfeita ao invés de trajar o paletó, disposto a dissecar o significado preciso daquele segredo por meio da análise pormenorizada de todas as suas possíveis interpretações. A última vez que trabalhara o intelecto nessa intensidade havia sido durante a preparação para o concurso público que o presenteara com uma vida normal, a vida que lhe pertencia e a mais ninguém, a sua vida, a vida que tinha inteira pela frente: o salário afixado ao primeiro dia de cada mês, trinta dias de férias a cada ano e 45 anos de serviço até ser aposentado compulsoriamente. A vida que lhe garantia o conforto do poder aquisitivo e a paz de espírito de, como costumavam vangloriar-se os colegas, não ter mais com que se preocupar. K. era um homem feliz, um homem feliz com um segredo.
As chaves do carro estavam no bolso esquerdo e o telefone celular no direito. O rosto diante de si, a sua frente, inspiraria apenas a indiferença de quem o olhasse. Olhava-o com atenção numa busca inútil, estranhando a si mesmo, mas sem perplexidade, apenas se certificando de que a boca, os olhos e o cabelo de raposa continuavam ali, enquanto apalpava as laterais da calça: aquele era ele e ele não poderia jamais ser outra pessoa nem ter outra cara. As sobrancelhas escondiam-se parcialmente atrás da armação dos óculos, mas não o suficiente para esconder o defeito de que estavam coladas uma à outra por uma terceira sobrancelha imediatamente acima do nariz. O rosto de K. era pálido e comum como os rostos existentes nas multidões. O rosto de uma pessoa de quem se pode esperar pouco ou não se pode esperar nada, como se atrás dele houvesse um cérebro duro, como uma noz, impermeável à sofisticação das idéias filosóficas, e pequeno, como uma noz, incompetente para transformar emoções oriundas das vísceras, como a indignação ou o repúdio, em ação. Ao estudar-se no espelho, durante a breve viagem de cinco andares até o térreo, K. constatou que não se parecia consigo próprio, o que, no plano esboçado em sua mente, constituía um enorme trunfo sobre o acaso. Revelar o segredo que carregava na bolsa envolvia riscos, riscos sérios, possivelmente uma condenação, e, por isso, desvencilhar-se de sua própria identidade era fundamental. Testemunha ocular alguma poderia acusa-lo de haver entregue o segredo ao domínio público se não o pudesse identificar. K. lera, dia desses, que o maior ardil armado pelo Diabo foi convencer a humanidade de que ele não existe.
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