sábado, 24 de outubro de 2009
devaneio burocrático
imprimem
à resma de papel
a identidade
de um estranho.
o nome
o número
o cargo
pertencem apenas ao carimbo.
os olhos na cara
e as pupilas nos olhos
já vão longe,
mareados
pelas águas azuis
que cingem
a ilha fantástica
na tela do computador.
a informática faz milagres.
um dia
não haverá mais carimbos
e os sonhos,
como as ilhas desertas,
poderão, enfim, ser habitados.
sábado, 17 de outubro de 2009
o céu de Marília
Ato contínuo, compreendeu que aquela vontade era
inútil porque a morte de seu pai era a única coisa que
tinha acontecido no mundo e continuaria acontecendo
O céu não é paisagem estática. Há quem veja formas de animais no contorno das nuvens, quando o vento as empurra e as vai dobrando como se feitas de argila ou algodão. Há quem se perca nos próprios pensamentos ao contemplar o sol a perfurar o horizonte, anunciando Deus no firmamento. Aos estudiosos da meteorologia não deve sobrar muita coisa além de nomes científicos e probabilidade de chuva. Quando penso no céu, é para dar conta da saudade que me causa a falta do meu pai. Há dias em que é quase possível sentir a eletricidade no ar. Tem-se a certeza de que vai chover, apesar do dia claro e do azul profundo. A tempestade vem de longe, contornando os picos da serra, e, de repente, ao final da tarde, apaga, com uma ripada, o incêndio a que dezembro submete as ruas da cidade e as plantações no campo. Era uma correria danada para fechar as janelas da casa. Minha avó deixava-as propositadamente abertas, todas, como arapucas para eventuais brisas que vinham perder-se na sala de estar, onde ficava a mesa de feltro verde. Ela tem mania de jogar paciência. (xxxxxxxx) Naquela tarde, porém, ninguém poderia adivinhar que vinha chuva. O estouro distante dos trovões não ressoou. A ventania tampouco arremessou as venezianas contra as paredes da varanda. O dia estava calmo e quente e estático. Não conseguia, por nada no mundo, me concentrar no livro das férias. Empurrava a rede com o pé, bem de leve, enquanto escutava os ruídos da casa: mãos habilidosas embaralhando cartas e o tilintar de aço, louça e vidro. A voz da minha mãe vez por outra emitia opiniões incompreensíveis, mas que provocavam riso na Dora. As duas limpavam a cozinha depois do almoço, enquanto eu cochilava na rede e minha irmã passeava com a filha da caseira. Não sentia preguiça, mas receio – medo de algo que não saberia descrever, como a solidão, que é ausência de tudo, até palavras. (xxxxx) Na noite anterior, havia observado meu pai enquanto dormia. Há anos não fazia isso. De pequena, era a via de regra: sempre que tinha pesadelos, corria para a cama deles e, sem pedir licença, me enfiava na trincheira entre os dois, ao abrigo de qualquer maldade. Acho que tive insônia aquela noite, minha irmã dormia, e precisava conversar com alguém. Bati à porta do quarto deles. Não houve resposta. Entrei assim mesmo, e lá estava meu pai, virado para a porta, os olhos trancados à chave. Os fios de cabelo sobre a cabeça pálida pareciam riscos de lápis numa folha de papel. Percebi que a careca lhe conferia imensa simpatia, porque, quando sorria, franzia a testa, e a ausência de franja revelava extensas rugas que confirmavam: a felicidade era, para ele, um sentimento verdadeiro e habitual, como o cansaço para a maioria das pessoas. Vendo-o dormir, era como se tivéssemos trocado de papel e fosse minha responsabilidade zelar por ele. Aquilo me deu medo, talvez o mesmo medo que sentia no dia seguinte, deitada à rede, quando vi um único raio rasgar o céu e desorganizar minha vida pelos próximos cinco, seis, sete, cem anos. Levantei (xxxxxxx). Chamei minha mãe (xxx). Minha irmã voltou do pomar (xxxxxx). Não lembro a ordem das coisas depois do raio. Os fatos graves estão fora do tempo porque as partes que os formam não parecem consecutivas. A noite chegou, junto com a chuva, e nada do meu pai, que havia saído para jogar futebol. Ao invés dele, chegou o prefeito da cidade. Suava. Avisou que meu pai tinha sofrido um acidente grave e estava na Santa Casa de Campininha. Saímos de carro, quatro mulheres apavoradas e o homem gordo, que dirigia e não abriu mais a boca. Chovia muito. A estrada havia se transformado num lamaçal. Quando chegamos, uma pequena multidão aglomerava-se diante do hospital. Logo à entrada do pronto socorro, um médico chamou minha mãe de lado e anunciou que meu pai havia falecido. Não podia acreditar. O motivo: um raio havia lhe caído sobre a cabeça. Pode a verdade ser impossível? O resto da memória daquele dia se perdeu em lágrimas. (xxxxx) Meu pai voltaria a morrer muitas vezes, sempre que.
Antes que Marília pudesse terminar a frase, a voz rouca do diretor anunciou o fim do exercício. Ela hesitou em largar a caneta. Tinha ganas de continuar escrevendo até completar um livro. A morte do pai era assunto inesgotável. Mas a instrução agora correspondia a organizar-se em roda e compartilhar com o resto do grupo o resultado dos cinco minutos de escrita automática. Enxugou o nariz e as bochechas, vermelhas como carne viva, e juntou-se aos colegas no centro da sala.
.
Fechou os olhos, completamente sozinha, e concluiu, sozinha, a frase que, há pouco, não chegou a terminar, meu pai voltaria a morrer muitas vezes, sempre que olhava o céu e não podia vê-lo por trás das nuvens.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
terrorismo literário e caralinhos voadores
Li a entrevista do júnior Duran. Fiquei impressionado com o fascínio do homem por marcas. Na matéria, revela que decidiu fazer fotografia ainda adolescente ao admirar-se por um fotógrafo, que, à época, comia sua prima, 20 anos mais nova. O que lhe chamou a atenção no homem foi um jacaré da Lacoste estampado sobre seu peito, como se nu estivesse de camisa. Nas palavras de júnior, "ele [o fotógrafo da tatuagem] tinha uma inquietude, conhecia muitas coisas, e esta é a característica dos fotógrafos: ser um especialista em tudo". Júnior Duran é também escritor. Só toma notas em cadernos Moleskine. Outra característica dos fotógrafos, em particular do Júnior, é cagar regras em grande estilo.
De uma dessas viagens a São Paulo veio a ideia do terrorismo literário. A caneta estava à mão e minha paciência havia se esgotado na sala de embarque. Supreendido pela saberência do fotógrafo magnífico, autor de ficção e conhecedor do "exótico e misterioso" continente africano, comecei a ilustrar a revista com caralinhos voadores. Júnior Duran sonha com caralinhos voadores, informava na legenda dos desenhos. Não posso levá-lo a sério. O que ele diz não faz sentido. Ele não sabe nada, apenas sonha com caralinhos voadores. Pairam sobre a cabeça dele como cupidos.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
o medo em santa cruz
O vento feria-lhe a pele do tórax, atropelando o casaco sintético de motociclista e insinuando-se pela fresta da camisa, como os estalactites de gelo que pendem da borda dos telhados no inverno. Ainda não começara a nevar, mas já era possível sentir com absoluta clareza o cheiro indiferente do frio, um odor sem fragrância, sem rastros de flores ou plantas, morto e seco por dentro. Baixou o gorro sobre as orelhas num gesto furtivo e sua testa desapareceu até a linha das sobrancelhas. Mais alguns centímetros e estaria completamente irreconhecível. As mãos regressaram rapidamente para o abrigo dos bolsos. Caminhava a passos rápidos, um pé no encalço imediato do outro, tentando convencer a si mesmo que ganhar velocidade era apenas a melhor forma de manter-se aquecido. Não tinha pressa porque não sentia medo, repetia de si para si. Sentia frio.
A irmã caminhava ao seu lado e queixou-se, pela segunda vez, porque tinha dificuldade em acompanhá-lo. Falava sem parar a respeito da festa para a qual não havia sido convidada na semana anterior, mas à qual comparecera assim mesmo, por meio dos relatos pormenorizados das amigas. Relacionava os acontecimentos daquela noite como se somasse, subtraisse e multiplicasse em vão os elementos de uma equação matemática cuja resolução está prestes a ser revelada. A boca estava em descompasso com as pernas, e, a cada elemento novo que introduzia no problema – uma terceira dose de pisco, picuinhas nacionalistas, olhares escorrendo sobre o decote de uma namorada perdida, o sangue arterial jorrando do nariz do namorado desnorteado –, agitava os dedos em riste no ar como se quisesse acusa-lo de um crime perverso e inafiançável. Sua voz descrevia círculos e curvas estridentes como vagões a derrapar sobre os trilhos de uma montanha russa. Tinha um tom agudo quase insuportável quando se inflamava que, em circunstâncias como aquela, remetiam-no invariavelmente à memória da infância.
Concentrado em sua mudez de esfinge, irritava-se com a irmã por três motivos simultâneos e coincidentes: seu talento para discorrer por horas a fio sobre o mesmo assunto sem chegar a conclusões favoráveis ou otimistas, sua descoordenação motora, que a tornava incapaz de falar sem se perder do ritmo da caminhada, e sua insistência em inquiri-lo a respeito dos acontecimentos do último sábado, história que considerava encerrada e arquivada. Arriscou dissipar seu nervosismo e anular o solilóquio da irmã assobiando as time goes by, atitude que ela classificou como no mínimo desapropriada para o momento. O momento era sério, exigia sensatez e reflexão, e, fosse menos orgulhoso ou fosse menos teimoso, reconheceria a necessidade de pedir perdão. Admitir que havia errado, no entanto, correspondia a assumir que estava arrependido. E o arrependimento naquela noite de especulações valia muito mais do que a vaidade de seus vinte e cinco anos. Sua vida estava em risco.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
censo comum
milhão
como dois
e dois são cinco.
multidões
de almas
desertas
nas ruas
e
turbilhões
de ruas
abertas
na alma.
domingo, 4 de outubro de 2009
1. tomar o elevador
As chaves do carro estavam no bolso esquerdo e o telefone celular no direito. O rosto diante de si, a sua frente, inspiraria apenas a indiferença de quem o olhasse. Olhava-o com atenção numa busca inútil, estranhando a si mesmo, mas sem perplexidade, apenas se certificando de que a boca, os olhos e o cabelo de raposa continuavam ali, enquanto apalpava as laterais da calça: aquele era ele e ele não poderia jamais ser outra pessoa nem ter outra cara. As sobrancelhas escondiam-se parcialmente atrás da armação dos óculos, mas não o suficiente para esconder o defeito de que estavam coladas uma à outra por uma terceira sobrancelha imediatamente acima do nariz. O rosto de K. era pálido e comum como os rostos existentes nas multidões. O rosto de uma pessoa de quem se pode esperar pouco ou não se pode esperar nada, como se atrás dele houvesse um cérebro duro, como uma noz, impermeável à sofisticação das idéias filosóficas, e pequeno, como uma noz, incompetente para transformar emoções oriundas das vísceras, como a indignação ou o repúdio, em ação. Ao estudar-se no espelho, durante a breve viagem de cinco andares até o térreo, K. constatou que não se parecia consigo próprio, o que, no plano esboçado em sua mente, constituía um enorme trunfo sobre o acaso. Revelar o segredo que carregava na bolsa envolvia riscos, riscos sérios, possivelmente uma condenação, e, por isso, desvencilhar-se de sua própria identidade era fundamental. Testemunha ocular alguma poderia acusa-lo de haver entregue o segredo ao domínio público se não o pudesse identificar. K. lera, dia desses, que o maior ardil armado pelo Diabo foi convencer a humanidade de que ele não existe.