O vento feria-lhe a pele do tórax, atropelando o casaco sintético de motociclista e insinuando-se pela fresta da camisa, como os estalactites de gelo que pendem da borda dos telhados no inverno. Ainda não começara a nevar, mas já era possível sentir com absoluta clareza o cheiro indiferente do frio, um odor sem fragrância, sem rastros de flores ou plantas, morto e seco por dentro. Baixou o gorro sobre as orelhas num gesto furtivo e sua testa desapareceu até a linha das sobrancelhas. Mais alguns centímetros e estaria completamente irreconhecível. As mãos regressaram rapidamente para o abrigo dos bolsos. Caminhava a passos rápidos, um pé no encalço imediato do outro, tentando convencer a si mesmo que ganhar velocidade era apenas a melhor forma de manter-se aquecido. Não tinha pressa porque não sentia medo, repetia de si para si. Sentia frio.
A irmã caminhava ao seu lado e queixou-se, pela segunda vez, porque tinha dificuldade em acompanhá-lo. Falava sem parar a respeito da festa para a qual não havia sido convidada na semana anterior, mas à qual comparecera assim mesmo, por meio dos relatos pormenorizados das amigas. Relacionava os acontecimentos daquela noite como se somasse, subtraisse e multiplicasse em vão os elementos de uma equação matemática cuja resolução está prestes a ser revelada. A boca estava em descompasso com as pernas, e, a cada elemento novo que introduzia no problema – uma terceira dose de pisco, picuinhas nacionalistas, olhares escorrendo sobre o decote de uma namorada perdida, o sangue arterial jorrando do nariz do namorado desnorteado –, agitava os dedos em riste no ar como se quisesse acusa-lo de um crime perverso e inafiançável. Sua voz descrevia círculos e curvas estridentes como vagões a derrapar sobre os trilhos de uma montanha russa. Tinha um tom agudo quase insuportável quando se inflamava que, em circunstâncias como aquela, remetiam-no invariavelmente à memória da infância.
Concentrado em sua mudez de esfinge, irritava-se com a irmã por três motivos simultâneos e coincidentes: seu talento para discorrer por horas a fio sobre o mesmo assunto sem chegar a conclusões favoráveis ou otimistas, sua descoordenação motora, que a tornava incapaz de falar sem se perder do ritmo da caminhada, e sua insistência em inquiri-lo a respeito dos acontecimentos do último sábado, história que considerava encerrada e arquivada. Arriscou dissipar seu nervosismo e anular o solilóquio da irmã assobiando as time goes by, atitude que ela classificou como no mínimo desapropriada para o momento. O momento era sério, exigia sensatez e reflexão, e, fosse menos orgulhoso ou fosse menos teimoso, reconheceria a necessidade de pedir perdão. Admitir que havia errado, no entanto, correspondia a assumir que estava arrependido. E o arrependimento naquela noite de especulações valia muito mais do que a vaidade de seus vinte e cinco anos. Sua vida estava em risco.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
o medo em santa cruz
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