sábado, 17 de outubro de 2009

o céu de Marília

“... a partir daquele instante, quis estar no dia seguinte.
Ato contínuo, compreendeu que aquela vontade era
inútil porque a morte de seu pai era a única coisa que
tinha acontecido no mundo e continuaria acontecendo

infindavelmente.”
emma zunz, J.L.Borges

O céu não é paisagem estática. Há quem veja formas de animais no contorno das nuvens, quando o vento as empurra e as vai dobrando como se feitas de argila ou algodão. Há quem se perca nos próprios pensamentos ao contemplar o sol a perfurar o horizonte, anunciando Deus no firmamento. Aos estudiosos da meteorologia não deve sobrar muita coisa além de nomes científicos e probabilidade de chuva. Quando penso no céu, é para dar conta da saudade que me causa a falta do meu pai. Há dias em que é quase possível sentir a eletricidade no ar. Tem-se a certeza de que vai chover, apesar do dia claro e do azul profundo. A tempestade vem de longe, contornando os picos da serra, e, de repente, ao final da tarde, apaga, com uma ripada, o incêndio a que dezembro submete as ruas da cidade e as plantações no campo. Era uma correria danada para fechar as janelas da casa. Minha avó deixava-as propositadamente abertas, todas, como arapucas para eventuais brisas que vinham perder-se na sala de estar, onde ficava a mesa de feltro verde. Ela tem mania de jogar paciência. (xxxxxxxx) Naquela tarde, porém, ninguém poderia adivinhar que vinha chuva. O estouro distante dos trovões não ressoou. A ventania tampouco arremessou as venezianas contra as paredes da varanda. O dia estava calmo e quente e estático. Não conseguia, por nada no mundo, me concentrar no livro das férias. Empurrava a rede com o pé, bem de leve, enquanto escutava os ruídos da casa: mãos habilidosas embaralhando cartas e o tilintar de aço, louça e vidro. A voz da minha mãe vez por outra emitia opiniões incompreensíveis, mas que provocavam riso na Dora. As duas limpavam a cozinha depois do almoço, enquanto eu cochilava na rede e minha irmã passeava com a filha da caseira. Não sentia preguiça, mas receio – medo de algo que não saberia descrever, como a solidão, que é ausência de tudo, até palavras. (xxxxx) Na noite anterior, havia observado meu pai enquanto dormia. Há anos não fazia isso. De pequena, era a via de regra: sempre que tinha pesadelos, corria para a cama deles e, sem pedir licença, me enfiava na trincheira entre os dois, ao abrigo de qualquer maldade. Acho que tive insônia aquela noite, minha irmã dormia, e precisava conversar com alguém. Bati à porta do quarto deles. Não houve resposta. Entrei assim mesmo, e lá estava meu pai, virado para a porta, os olhos trancados à chave. Os fios de cabelo sobre a cabeça pálida pareciam riscos de lápis numa folha de papel. Percebi que a careca lhe conferia imensa simpatia, porque, quando sorria, franzia a testa, e a ausência de franja revelava extensas rugas que confirmavam: a felicidade era, para ele, um sentimento verdadeiro e habitual, como o cansaço para a maioria das pessoas. Vendo-o dormir, era como se tivéssemos trocado de papel e fosse minha responsabilidade zelar por ele. Aquilo me deu medo, talvez o mesmo medo que sentia no dia seguinte, deitada à rede, quando vi um único raio rasgar o céu e desorganizar minha vida pelos próximos cinco, seis, sete, cem anos. Levantei (xxxxxxx). Chamei minha mãe (xxx). Minha irmã voltou do pomar (xxxxxx). Não lembro a ordem das coisas depois do raio. Os fatos graves estão fora do tempo porque as partes que os formam não parecem consecutivas. A noite chegou, junto com a chuva, e nada do meu pai, que havia saído para jogar futebol. Ao invés dele, chegou o prefeito da cidade. Suava. Avisou que meu pai tinha sofrido um acidente grave e estava na Santa Casa de Campininha. Saímos de carro, quatro mulheres apavoradas e o homem gordo, que dirigia e não abriu mais a boca. Chovia muito. A estrada havia se transformado num lamaçal. Quando chegamos, uma pequena multidão aglomerava-se diante do hospital. Logo à entrada do pronto socorro, um médico chamou minha mãe de lado e anunciou que meu pai havia falecido. Não podia acreditar. O motivo: um raio havia lhe caído sobre a cabeça. Pode a verdade ser impossível? O resto da memória daquele dia se perdeu em lágrimas. (xxxxx) Meu pai voltaria a morrer muitas vezes, sempre que.

Antes que Marília pudesse terminar a frase, a voz rouca do diretor anunciou o fim do exercício. Ela hesitou em largar a caneta. Tinha ganas de continuar escrevendo até completar um livro. A morte do pai era assunto inesgotável. Mas a instrução agora correspondia a organizar-se em roda e compartilhar com o resto do grupo o resultado dos cinco minutos de escrita automática. Enxugou o nariz e as bochechas, vermelhas como carne viva, e juntou-se aos colegas no centro da sala.

Todos tiveram que ler, mas, nas palavras do diretor, nem todos leram histórias urdidas do fundo da alma. Lançou Marília como exemplo aos demais, salientando que, durante sua leitura, o vigor espiritual do texto, muito mais que o mero relato de um acontecimento, havia ficado evidente. “Vocês perceberam? Obrigou-se a interromper a fala sucessivas vezes, para tomar ar e conter a emoção. É sinal de que estava realmente sentindo o que dizia”.

Desde que ingressara na companhia teatral, há pouco mais de dois anos, a admiração do diretor pela menina, quieta e desconcertantemente loira, crescia. Haviam estabelecido uma relação de estreita amizade. Dedicava-lhe boa parte do seu tempo, entre pensamentos mudos, ironias bem intencionadas e conselhos. Indicava-lhe autores insuperáveis e filmes imperdíveis, oferecia-lhe convites para as exposições que tinha preguiça de visitar, queria sempre saber sua opinião a respeito dos rumos da peça que começavam a ensaiar, dividia com ela suas angústias de artista, além de duas religiosas manhãs de sábado por mês, nas quais lhe ensinava técnicas de impostação de voz e postura corporal. O aprendizado de toda uma vida consagrada a Dioniso era, naquele singular relacionamento entre um homem de sessenta anos e uma órfã quarenta anos mais nova, objeto simultâneo de generosa caridade e desmedida adoração. Tinha o cuidado permanente de acompanhar o desempenho de Marília durante os exercícios cênicos em grupo. O ciúme que o excesso de zelo provocava nas outras atrizes, costumava dissipar com reprimendas violentas, cujo alvo não eram elas, mas justamente a introspectiva menina de cabelos amarelos, talentosa, mas incapaz de executar a atividade a contento. Ela tinha força para agüentar firme até o fim do dia, quando desabava em prantos no camarim deserto, sentindo ódio e com vontade de quebrar o espelho diante de si e cravar uma das lâminas prateadas nas costas do velho injusto e grosseiro. Ao detectá-la prestes a deixar o teatro, como se para seu discreto esplendor tivesse um sexto sentido, o diretor interrompia o que quer que estivesse fazendo para pedir-lhe desculpas e, por meio de longas explicações que envolviam culpa e difíceis conceitos filosóficos, forjar a reconciliação. Nem sempre Marília perdoava-o de imediato. A trégua podia demandar visitas ao café no fim da rua: capucino, maços inteiros de cigarro, novas digressões acerca da natureza humana e, às vezes, até mesmo velhos causos em que exagerava sua astúcia para lidar com atores consagrados que, à época, não passavam de inexperientes malcriados. Os olhos dela, colados nos seus e azuis como o verde, enchiam-se de brilho e estima. Era o sinal inconteste de que tudo estava resolvido. A amizade voltaria a seguir seu curso natural. Voltaria a aproximá-los, não apenas como irmãos, pois a fraternidade é a harmonia inerente às amizades convencionais, mas também como pai e filha. Marília não o confessava a ninguém, talvez porque não o soubesse, mas aquele senhor ressuscitara seu pai e, cinco anos após sua morte, educar-lhe-ia na profissão para a qual havia decidido devotar sua alma. A ingênua gravidade da decisão tomada pela menina, que, a qualquer custo, como a Nina de Tchekov, tornar-se-ia atriz, era de pleno conhecimento do diretor. A densidade de seu afeto por ele – a veneração que as crianças têm para com seus heróicos pais –, idem. O diretor não conseguira ainda achar as palavras adequadas para expressar a correspondência de seus sentimentos.

Ao dispensar o grupo de atores do ensaio, o diretor pediu à Marília que o procurasse antes de partir. Precisava lhe falar sobre o exercício de escrita automática e, nas suas palavras, sobre outros assuntos igualmente dignos de consideração. Pediu que fosse sozinha. “Se não for hoje, acabo me esquecendo”, observou. Ela o encontrou encerrado em seu gabinete, mal iluminado por um abajur de metal enferrujado. O diretor divagava de olhos fechados, o rosto deitado nas mãos e os cotovelos encravados na mesa. Não percebeu (ou fingiu não perceber) quando ela entrou. Riu do próprio sobressalto e ofereceu-lhe uma cadeira. Estendeu-lhe a mão, estranhamente oblonga, e recebeu, em troca, outra mão, menor, de dedos finos e úmidos como raízes. Falou sem parar. Discorreu sobre a amizade, a arte, o teatro, a beleza e o preço que se tem de pagar para ascender às estrelas. Enquanto descortinava essas palavras secretas, há tanto tempo enterradas no silêncio que exalavam miasma, comprimia a mão dentro da sua, até quase esmagá-la.
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A dor alastrou-se pelo corpo de Marília como uma descarga elétrica. Ao atingir o coração, infiltrou-se pelas artérias e, num átimo, possuiu todo seu corpo, queimando-lhe a pele por dentro. Lutou, gritou, soluçou. Em vão, tentou desvencilhar-se. A dor era muito forte, demasiadamente intensa. Calou-se com os olhos fixos no teto do minúsculo escritório. Usou da escuridão para imaginar que estava em Campininha, na varanda do sítio, às vésperas de celebrar o ano novo. Ouviu, à distância, a voz de seu pai, que finalmente regressava do jogo de futebol. Dizia-lhe que não tivesse medo. Ela o procurou na escuridão, por todos os lados, dentro e fora da casa, pelo jardim, pelo pomar, mas não o encontrou em lugar algum.

Fechou os olhos, completamente sozinha, e concluiu, sozinha, a frase que, há pouco, não chegou a terminar, meu pai voltaria a morrer muitas vezes, sempre que olhava o céu e não podia vê-lo por trás das nuvens.

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